Liderança criativa ganha escolas – pesquisadora Adriana Baraldi é destaque

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 Uma decepção com o mundo corporativo levou o empresário Henrique  Versteeg-Verdana a decidir buscar uma carreira com mais desafios e significado.  Após trabalhar por um ano no departamento de sustentabilidade na sede de um  grande banco holandês, ele percebeu que não se encaixava na área financeira.  “Havia excesso de burocracia e de regras. Os feedbacks tinham pouco a ver com o  meu resultado. Em um deles, fui criticado pelo meu chefe por não usar gravata e  por perguntar demais”, conta.

Alguns meses depois, Verdana embarcou para Aarhus, na Dinamarca, para um  curso de três anos na KaosPilot, uma escola de liderança criativa que não tem  seus cursos reconhecidos pelo Ministério da Educação do país e que até 2005  tinha o dinamarquês como idioma oficial.

Antes de fazer uma escolha tão  inusitada, porém, chegou a considerar alguns MBAs na Europa e no Canadá.  “Percebi que tinha algo diferente na KaosPilot já no processo de seleção, quando  fizeram perguntas muito profundas e interessantes”, diz o atual sócio da  CoCriar, empresa de inteligência e inovação de processos que tem entre seus  clientes Natura, Porto Seguro e Senac-SP.

Fundada em 1991 como um projeto de educação experimental, a KaosPilot é uma  das primeiras iniciativas de liderança criativa na Europa e se propõe a ser um  espaço para o que chama de “desencaixados”. “Trabalhamos com pessoas que não se  adaptaram ao sistema tradicional corporativo ou acadêmico. Alguns participantes  não têm sequer graduação universitária”, afirma Simon Kavanagh, responsável pela  área de desenvolvimento internacional e design educacional da escola.

O modelo que propõe o desenvolvimento de habilidades como inovação,  empreendedorismo corporativo e capacidade de tomar decisões rápidas em ambientes  caóticos ou incertos está por trás do surgimento de cada vez mais programas e  escolas europeias. Guiadas por princípios como multidisciplinaridade,  aprendizado por meio de projetos corporativos reais e avaliação de pares,  instituições como a KaosPilot, a holandesa THNK e a inglesa Regent’s College  London têm conquistado espaço.

De acordo com Kavanagh, há alguns anos as empresas demitiam os profissionais  de inovação em períodos de instabilidade ou quando era necessário fazer cortes  na folha de pagamento. Agora, esses especialistas são valorizados e disputados.  “A diferença é que desta vez existe uma crença de que a proatividade e a  criatividade vão tirar o mercado da crise”. Uma pesquisa realizada pela  KaosPilot no ano passado mostrou que, mesmo com as turbulências na economia, o  índice de empregabilidade dos ex-alunos se manteve em 97%.

Conhecidas por promover ambientes informais, pela ausência de professores  tradicionais e até de salas de aula, algumas instituições rejeitam, inclusive, o  rótulo de escolas. É o caso da THNK, criada há um ano e meio pela prefeitura de  Amsterdam e pelo Ministério da Economia da Holanda. “O objetivo era atender a  uma demanda por inovação das empresas e da sociedade”, afirma o sócio Rajiv  Ball. Apesar de ter uma sede no centro da cidade, os participantes dos cursos  concentram suas atividades em um parque local. Com duração de 18 meses, o curso  tem módulos de 15 dias intensivos. “Parte do programa é receber palestrantes  convidados, que ajudam os alunos a resolver problemas reais de empresas  patrocinadoras do curso. O programa é 100% experiencial.”

Após mais de uma década atuando na área de marketing de multinacionais, uma  especialização e um mestrado, a brasileira Adriana Baraldi foi procurada pela  THNK para fazer parte de sua terceira “turma”. “Quando a proposta chegou até  mim, entendi que estava lidando com um novo modelo de educação que conectava  inovação e sustentabilidade. Era um olhar prático e aplicado do que eu tinha  estudado”, afirma.

O grupo de 32 pessoas de 26 nacionalidades e o trabalho conjunto são alguns  dos pontos que, segundo ela, diferem de outras experiências educacionais que  teve no Brasil. “Tínhamos pessoas de sustentabilidade, design, educação e  finanças, além de convidados para falar de temas como games e ficção  científica”, diz. O desafio de lidar com diversidade a ajudou a desenvolver  habilidades como mediação e capacidade de adaptação. Hoje, Adriana é professora  de escolas de negócios e pesquisadora do fórum de inovação da Fundação Getulio Vargas em São Paulo.

Segundo Ball, as escolas de educação executiva tradicionais insistem em um  modelo que privilegia habilidades funcionais e profissionais com formações muito  específicas. “Uma classe típica é formada por profissionais de consultorias e do  mercado financeiro. Já na THNK, um terço dos participantes vem do mundo  corporativo, outro é de empreendedores sociais e o restante é formado por  profissionais de todas as áreas”, diz.

A seleção de um time multidisciplinar, segundo Kavanagh, é um dos principais  desafios. Na KaosPilot, a escolha dos participantes passa por uma fase onde o  candidato precisa desenvolver um projeto na área de inovação. O segundo passo é  um workshop de três dias onde a nova turma será escolhida pelos próprios  estudantes da escola. “No final, formamos um grupo que será o mais complementar  possível”, diz.

No recém-criado mestrado em liderança criativa do Regent’s College London, a  multidisciplinaridade também está no currículo. O curso é uma combinação do  conteúdo das escolas de negócios, psicoterapia, mídia, artes e drama, ciências  sociais e psicologia. “O foco em liderança criativa já existia, mas queríamos  ter uma cooperação verdadeira entre as diferentes faculdades”, explica Anton  Baumohl, responsável pelo curso.

O próximo módulo, segundo ele, fará uma conexão entre arte, filosofia e  liderança. A combinação pouco tradicional é um atrativo para candidatos que não  conseguiram se adaptar em escolas tradicionais. “Um de nossos alunos abandonou  três diferentes cursos de MBA. Outra é uma empreendedora na faixa dos 50 anos  que nunca foi à faculdade”, diz.

A maior parte das escolas prestigia a figura do empreendedor, que, segundo os  coordenadores, atua a maior parte do tempo em modo experimental e lida melhor  com o fracasso. Na KaosPilot, um terço dos participantes se torna empreendedor,  seja abrindo seus próprios negócios ou dentro das empresas – implementando novos  processos ou participando de projetos de gestão da mudança.

No ano passado, a KaosPilot abriu uma escola licenciada na Suíça e estuda  investir em outras. Já a THNK tem planos para abrir unidades no Canadá e na  China. Por enquanto, alunos como Adriana e Verdana são ‘desbravadores’, dentro  de um grupo onde os europeus ainda são maioria.

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